terça-feira, 27 de novembro de 2012

Abre Aspas



Amar

     "Procure me amar quando eu menos merecer, porque é quando eu mais preciso.

Falamos à beça de amor. Apesar das nossas singularidades, temos pelo menos esse desejo em comum: queremos amar e ser amados. Amados, de preferência, com o requinte da incondicionalidade. Na celebração das nossas conquistas e na constatação dos nossos fracassos. No apogeu do nosso vigor e no tempo do nosso abatimento. No momento da nossa alegria e no alvorecer da nossa dor. Na prática das nossas virtudes e no embaraço das nossas falhas. Mas não é preciso viver muito para percebermos nos nossos gestos e nos alheios que não é assim que costuma acontecer.
Temos facilidade para amar o outro nos seus tempos de harmonia. Quando realiza. Quando progride. Quando sua vida está organizada e seu coração está contente. Quando não há inabilidade alguma na nossa relação. Quando ele não nos desconcerta. Quando não denuncia a nossa própria limitação. A nossa própria confusão. A nossa própria dor. Fácil amar o outro aparentemente pronto. Aparentemente inteiro. Aparentemente estável. Que quando sofre não faz ruído algum.
Fácil amar aqueles que parecem ter criado, ao longo da vida, um tipo de máscara que lhes permite ter a mesma cara quando o time ganha e quando o cachorro morre. Fácil amar quem não demonstra experimentar aqueles sentimentos que parecem politicamente incorretos nos outros, embora costumem ser justificáveis em nós. Fácil amar quando somos ouvidos mais do que nos permitimos ouvir. Fácil amar aqueles que vivem noites terríveis, mas na manhã seguinte se apresentam sem olheiras, a maquiagem perfeita, a barba atualizada.
É fácil amar o outro na mesa de bar, quando o papo é leve, o riso é farto, e o chope é gelado. Nos cafés, após o cinema, quando se pode filosofar sobre o enredo e as personagens com fluência, um bom cappuccino e pão de queijo quentinho. Nos corredores dos shoppings, quando se divide os novos sonhos de consumo, imediato ou futuro. É fácil amar o outro nas férias de verão, no churrasco de domingo, nos encontros erotizados, nas festas agendadas no calendário do de vez em quando.
Difícil é amar quando o outro desaba. Quando não acredita em mais nada. E entende tudo errado. E paralisa. E se vitimiza. E perde o charme. O prazo. A identidade. E fala o tempo todo do seu drama com a mesma mágoa. Difícil amar quando o outro fica cada vez mais diferente do que habitualmente ele se mostra ou mais parecido com alguém que não aceitamos que ele esteja. Difícil é permanecer ao seu lado quando parece que todos já foram embora. Quando as cortinas se abrem e ele não vê mais ninguém na plateia. Quando até a própria alma parece haver se retirado.
Difícil é amar quando já não encontramos motivos que justifiquem o nosso amor, acostumados que estamos a achar que o amor precisa estar sempre acompanhado de explicação. Difícil amar quando parece existir somente apesar de. Quando a dor do outro é tão intensa que a gente não sabe o que fazer para ajudar. Quando a sombra se revela e a noite se apresenta muito longa. Quando o frio é tão medonho que nem os prazeres mais legítimos oferecem algum calor. Quando ele parece ter desistido principalmente dele próprio.
Difícil é amar quando o outro nos inquieta. Quando os seus medos denunciam os nossos e põem em risco o propósito que muitas vezes alimentamos de não demonstrar fragilidade. Quando a exibição das suas dores expõe, de alguma forma, também as nossas, as conhecidas e as anônimas. Quando o seu pedido de ajuda, verbalizado ou não, exige que a gente saia do nosso egoísmo, do nosso sossego, da nossa rigidez, para caminhar ao seu encontro.
Difícil é amar quando o outro repete o filme incontáveis vezes e a gente não aguenta mais a trilha sonora. Quando se enreda nos vícios da forma mais grosseira e caminha pela vida como uma estrela doída que ignora o próprio brilho. Quando se tranca na própria tristeza com o aparente conforto de quem passa um feriadão à beira-mar. Quando sua autoestima chega a um nível tão lastimável que, com sutileza ou não, afasta as pessoas que acreditam nele. Quando parece que nós também estamos incluídos nesse grupo.
Difícil é amar quem não está se amando. Mas esse talvez seja o tempo em que o outro mais precise se sentir amado. Para entender, basta abrirmos os olhos para dentro e lembrar das fases em que, por mais que quiséssemos, também não conseguíamos nos amar. A empatia pode ser uma grande aliada do amor." (Ana Jácomo)

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

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Limpei a casa, tirei a poeira dos sentimentos esquecidos e joguei fora tudo o que não uso e não quero mais.
Estou aqui. Como você pediu e merece.

Te quero, óh! De cara limpa e alma lavada!

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Crônica


Eu acho graça contar pros mesmos amigos a mesma história. Com os mesmos gestos, falas e lágrimas.
Há exatamente dois anos nos perdemos. E eu ainda me lembro da primeira vez que nos encontramos.


Era dezembro, havia neve, luzes e um lago congelado. Não sei como e nem o porquê, mas, nós estávamos no mesmo parque. Eu estava de férias e você a trabalho. Eu te ouvi falando em português no celular e pensei que era coisa da minha cabeça. Pois qual é a probabilidade de encontrar um brasileiro, sentado no banco ao lado? Eu ri. E você notou! Eu me lembro que você dizia estar com saudades e que logo voltaria. E quando desligou o telefone, nos olhamos. Bastou. Conversamos durante meia hora, era o que restava do seu horário de almoço.

O destino tem dessas coisas, né? Nos pega desprevenidos.
Foi assim com o nosso começo e com o nosso fim.


Um mês.
Não precismos de nada além disso pra nos apaixonar. Tínhamos tanta coisa em comum. Gostávamos de filmes antigos, pipoca com muita manteiga e de patinar no parque. Eu gostava do seu cheiro e da sua boina. E você dizia gostar da minha camiseta surrada do "ACDC".

Eu conheci seus pais assim que pousamos no Brasil. Me lembro o quanto foram receptivos. E achei engraçado vê-los tentar falar inglês comigo. Mais engraçado, foi quando você disse que eu era brasileira. Nos olhos da sua mãe, havia uma mistura de espanto e alívio, ao mesmo tempo. E ela quis saber como a gente se conheceu. Nos bombardeou de perguntas e encerrou dizendo: -O destino é mesmo engraçado!


O destino tem dessas coisas, né? Nos pega desprevenidos.
Foi assim com o nosso começo e com o nosso fim.


Foram tantos anos juntos, não é mesmo?
Você me deu forças quando eu descobri que estava grávida. Mesmo estando desempregado e eu terminando a faculdade, me dizia que tudo ia dar certo. Me deu mais força ainda quando perdi o nosso bebê. Foram tempos difíceis. Mas a gente superou. Do nosso jeito.

Você não gostava quando eu tirava o esmalte com os dentes. E eu não gostava quando você resolvia cozinhar. Eu gostava do seu cabelo e você dos meus olhos. E era assim que a gente se completava.


Me lembro quando saímos comemorar o seu novo emprego e do dia da minha formatura. E das flores que me deu quando subiu de cargo. E do cartão escrito: "Sem você, nada disso estaria acontecendo. Eu te amo."

O destino tem dessas coisas, né?! Nos pega desprevenidos.
Foi assim com o nosso começo e com o nosso fim.

Você era o chefe da empresa e fazia viagens pra resolver os problemas. Nem a distância mudava o que sentíamos. Você me trazia uma lembrança de cada lugar que passava. E eu guardava tudo naquela caixa florida, que fica na última gaveta da cômoda. Eu guardo cada pedaço de você lá. Eu guardei nós dois por seis anos.

Era dezembro. E nós brigamos, pois eu te queria por perto nas vésperas do Natal. E você quis fazer a última viagem de negócios do ano. Eu não te contei, sabe o quanto eu gosto de fazer surpresas. Mas enquanto você arrumava as malas, eu descobri que estava grávida novamente. A gente queria tanto um filho.
Você me deu um beijo apressado na testa, estava atrasado pro voo. E eu ouvi um último "eu te amo".

Ter perdido você naquele acidente, me fez perder parte da minha vida. Doía tanto, amor.
Eu queria ter te pedido desculpas pela briga, queria ter impedido você de sair por aquela porta, sem antes dizer o quanto eu te amava. Eu queria ter dito que seria pai.
Eu queria que ouvisse agora o nosso pequeno menino dizer a primeira palavra: Papai.

O destino tem dessas coisas, né? Nos pega desprevenidos.
Foi assim com o nosso começo e com o nosso fim.




segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Abre aspas


'Esquece essa gente pequena, dona moça. Não é todo mundo que guarda no peito, um baú feito o seu, cheio de inspiração, flores, cores e delicadezas. Tem gente que transforma o que passou, em mágoa. Feliz é você, dona moça, que pega o que restou do passado e transforma em poesia.' (Karla Tabalipa)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Achados e Perdidos

Mais um texto antigo pra fazer parte do "Achados e Perdidos".

Tem gente perdendo.
Perdendo a minha confiança.
Perdendo a graça.
Perdendo essência.
E eu, perdendo o meu tempo dando inúmeras chances!

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Crônica




Eu estava terminando de ler aquele livro que comecei na segunda, naquele mesmo café que frequento desde que me mudei pro novo apartamento. Eu me sentia sozinho. Por isso comecei ler, sentado no mesmo sofá, de frente pra vitrine de uma loja de departamento.

Acordei cedo numa manhã cinzenta, com mais preguiça que o normal. Pensei diversas vezes em ficar mais cinco minutos na cama. Mas, o último capítulo do livro me aguardava! E eu, precisava de inspiração para acabar de escrever o meu. Tomei um banho, coloquei aquela velha camisa xadrez, não arrumei o cabelo. Peguei a chave, o companheiro e o velho óculos de grau. Quando cheguei na esquina, me lembrei de que não tinha escovado os dentes. Ah, mas tudo bem. Nunca converso com ninguém! Sou o escritor fracassado.

Sabe quando você sai na rua com a sua roupa mais surrada e encontra aquela pessoa que não poderia encontrar? Não nesses trajes! Então, foi mais ou menos isso que aconteceu comigo! Você se pergunta: como você encontrou aquela pessoa, sendo que não conhece ninguém na sua nova cidade? Já explico.


Sentei no mesmo sofá vermelho, pedi o cappuccino de sempre. Passei a mão no cabelo, mas os óculos estavam no bolso da camisa. Coloquei-o e abri o livro.

O café era muito frequentado por gente de toda cor, raça, classe social. Eu costumava chama-lo de estufa. Era uma redoma de vidro aconchegante.

Mas, naquele dia, tudo seria diferente.

Escutei o sininho da porta anunciar a chegada de mais uma entre tantas pessoas que por ali passariam o dia todo. Você acha que não, mas em cidades grandes as pessoas adoram um café. Nunca entendi isso muito bem. Afinal, fui criado numa cidade de interior, com costumes e culturas diferentes. Mas, me adaptei rapidamente à vida de metrópole.

Virei mais uma página, quando por mim passou um perfume floral. Levantei os olhos. Passava por mim uma menina com um vestido delicado, uma bolsa com franjas, que carregava nela uma pequena jaqueta jeans. Ela tirou os óculos escuros dos olhos. E por Deus, que olhos lindos. Verdes. Ou poderiam ser azuis. Não sei dizer bem qual era a cor exata. Fiquei bobo. E ela percebeu isso quando derramei o copo do meu cappuccino que a garçonete havia colocado em minha mesa, sem eu nem notar. Ela sorriu! E eu pensei: como sou idiota!

Ela abriu a bolsa, tirou dela uma câmera fotográfica, dessas que as fotos saem na hora. E começou tirar fotos alheias. Ela era tão esquisita. Mas eu não consegui tirar os olhos dela.

Me deu uma vontade repentina de escrever o final pro meu livro. Peguei um pedaço de um guardanapo e aproveitei a vinda da garçonete (ela veio limpar a mesa!) e pedi uma caneta. Ela me olhou feio, mas acabou me arrumando uma. Escrevi. Escrevi tanto. Acho que usei todos os guardanapos da minha mesa. Por uma hora, esqueci de onde estava, como estava e da menina floral.

Olhei pro lado, ela não estava mais no sofá. Foi quando levei um susto: ela estava parada na minha frente, com os guardanapos da mesa dela na mão. Sorrindo me disse: "- Achei que precisaria!"
Não consegui fazer outra coisa, senão, olha-la e sorrir. Ela ficou meio sem graça. E por um minuto pensei em convida-la pra sentar... Quando ela virou as costas, depois de ter deixado os papéis em minha mesa, com uma fotografia minha escrevendo feito doido. Eu gritei, dando um salto do sofá. E ela sutilmente olhou pra mim -como todas as pessoas presentes no café.
"- Quer me mostrar as outras fotos?" Foi só isso que consegui falar. Mas, por incrível que pareça, ela me entendeu.

Sentamos juntos. Era a primeira pessoa que eu havia conversado naquela cidade. Tirando o cara mala da padaria, a garçonete mal humorada, o caixa do mercado e o rapaz da editora.
Conversamos por horas. Sobre fotografia, meu livro, sua esquisitice e meu cabelo bagunçado.

Eu tentei marcar um encontro com ela. Ali mesmo, na manhã seguinte. Ela tem umas manias malucas, sabe? Me disse que não queria marcar nada. Que o nosso encontro foi o destino quem marcou. E terminou dizendo: "- Se a gente tiver que se encontrar amanhã, nos encontraremos." Eu não disse que ela era esquisita? Mas era linda. Era uma boneca. Uma pintura. E quem podia contraria-la com aquele sorriso?!

Ela me deu um abraço e eu a beijei na testa. Fiquei pensando depois que ela saiu: "Quem dá beijo na testa?" E me senti um babaca. Até me sentar de novo, olhar a foto pela vigésima vez. Peguei todos os pedaços de guardanapo escrito, guardei em ordem no bolso. Deixei o dinheiro pra pagar a conta na mesa.

Chegando em casa, pra ser mais exato, na porta do apartamento, me embaralhei com as chaves numa mão, a outra estava ocupada segurando minha foto (tirada segundo os olhos da menina floral). Foi quando ela caiu, com a imagem voltada pro chão. E não é que havia uma dedicatória atrás? Dizia: "Escritor do cabelo bagunçado, o destino me disse que nos encontraremos amanhã, no mesmo lugar e no mesmo horário! Penteie o cabelo e escove os dentes. Com carinho, fotógrafa doida da mesa ao lado."

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Vinte e tantos



Um dia desses me perguntaram, como eu me sentia agora, depois de mais um aniversário. Se eu havia amadurecido! Oi? Ninguém amadurece da noite pro dia, de um ano completo pra outro. Maaaas, como não desperdiço nenhuma pulga atrás da orelha, me peguei pensando nisso.

Pensei milhares de coisas, um filme passou em minha cabeça. Mil e uma respostas, ou melhor, mil coisas que eu responderia sem medo, rodeado por algum palavrão! Rs
E como quem faz um balanço da vida, resolvi anotar numa dessas folhas decoradas e meigas, o que eu aprendi em vinte e tantas primaveras.

Aprendi que nem todas as pessoas pensam como eu e muito menos agem, como eu agiria. Aprendi que existem pessoas que desejam o mal mesmo. E aprendi também que isso tem volta. Pode demorar o tempo que for!

Aprendi que quando se está feliz, poucos dividirão essa felicidade com você. É mais fácil dividir tristezas e lamentações.
Aprendi que pensar primeiro em mim, não é egoísmo e sim, amor próprio. Aprendi que quando você faz algo de bom, ninguém se lembra. E quando um erro comete, ninguém se esquece.

Aprendi que amizade verdadeira está em falta no mercado. E que amor, poucos se atrevem sentir. Corajosos são os que permitem!

Aprendi que o único erro dos pais, é não serem eternos.
Aprendi também, que o tempo corre depressa e que não há relógio que perdoe o desperdício.
Aprendi que fé é uma sementinha que se rega todo dia. E que Deus escuta, sim. Mas, responde na hora certa.
Aprendi que irmãos sempre serão um pedacinho de nós. São laços. Bem feitos. Enfeitam.

Aprendi que a gente tem muito o que aprender e amadurecer. Mas, acredito que estou no caminho e no tempo certo. O meu.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Abre aspas


"Estar bem e feliz é uma questão de escolha e não de sorte ou mero acaso. É estar perto das pessoas que amamos, que nos fazem bem e que nos querem bem. É saber evitar tudo aquilo que nos incomoda ou faz mal, não hesitando em usar o bom senso, a maturidade obtida com experiências passadas ou mesmo nossa sensibilidade para isso. É distanciar-se de falsidade, inveja e mentiras. Evitar sentimentos corrosivos como o rancor, a raiva e as mágoas, que nos tiram noites de sono e em nada afetam as pessoas responsáveis por causá-los. É valorizar as palavras verdadeiras e os sentimentos sinceros que a nós são destinados. E saber ignorar, de forma mais fina e elegante possível, aqueles que dizem as coisas da boca para fora ou cujas palavras e caráter nunca valeram um milésimo do tempo que você perdeu ao escutá-las." (Nietzsche)